Arquivo no Polo Norte guarda obras e documentos brasileiros


Quem chegar à ilha de Svalbard, na Noruega, daqui a 400 anos, poderá ter acesso ao conteúdo da óperaO Guarani, escrita por Carlos Gomes em 1866, e ao passaporte de Santos Dumont, de 1919, que, assim como vários outros documentos brasileiros, estão guardados no Arquivo Ártico Global. 

Trata-se de um cofre que tem como objetivo preservar documentos e obras do mundo inteiro. Este não é o primeiro projeto do tipo: a alguns quilômetros do Arquivo se encontra o Silo Global de Sementes, uma estrutura que guarda e preserva espécies de sementes que podem servir como alimento para a população mundial. A região foi escolhida por ser protegida por um pacto internacional de que nenhuma atividade militar pode ocorrer ali. 

Inaugurado no fim de março, o Arquivo Ártico Global conta com contribuições do Brasil, do México e da própria Noruega — qualquer país, entidade ou pessoa física pode arquivar seus documentos no local. O cofre conta com a combinação de tecnologias analógicas e digitais para armazenar os arquivos. 

O método foi desenvolvido pela empresa norueguesa Piql que, em um primeiro momento digitaliza e armazena os documentos na nuvem. Acontece que, mesmo quando estão na nuvem, os arquivos dependem de suportes físicos que precisam da migração constante de dados, ou seja, têm vida útil. Por isso, a nuvem da empresa transforma os bits dos documentos em formato binário para pontos de luz — o número 1 se torna um ponto preto e, o número 0, um ponto branco — e, assim, os dados digitais são gravados em filme fotossensível.

O filme é um material que pode durar centenas de anos. "Além da preservação a longo prazo, nos preocupamos com a segurança da informação", explica Roberto Carminati, diretor técnico da Piql no Brasil em entrevista à GALILEU. "Hoje temos questões como hackers, invasões de base de dados e a autenticidade de documentos digitais. O documento que passa pelo nosso processo, após ser extraído na nuvem, é gravado em um suporte no qual não se pode gravar em cima. Não existe a possibilidade de ele ser invadido ou alterado."

Em Svalbard, o Arquivo Ártico Global fica em minas altas, que não serão afetadas caso haja um derretimento das calotas polares, o que poderia alagar o local. Além disso, o cofre fica em um solo que mistura gelo, rochas e terra e, com isso, permanece congelado durante o ano inteiro, mantendo o cofre em uma temperatura constante de -5°C, sem a necessidade de gastar energia elétrica para sua manutenção.

Do Arquivo Nacional do Brasil foram direto para o cofre a Lei Áurea; as Constituições de 1824 e a de 1891; o Juramento do Imperador D. Pedro I e da Imperatriz Leopoldina à Constituição de 1824; o Livro do 1º Ofício de Notas do Rio de Janeiro, de 1594; fotografias da Família Imperial no final do século 19 e no início do 20 e de manifestações contra a Ditadura Militar, nos anos 1960; o Discurso do Presidente Getúlio Vargas no Dia do Trabalhador, em 1940; a lista de passageiros do navio Kasato Maru trazendo os primeiros imigrantes japoneses para o Brasil, em 1908; a partitura da ópera O Guarani, manuscrita por Carlos Gomes em 1866; o passaporte de Santos Dumont, de 1919; e a Carta do Brasil ao Milionésimo, de 1922.


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