A pouco conhecida tradição da literatura de horror no Brasil


Então você mora num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza, certo? Pois bem: o trem da nossa história está lotado de artistas que exaltaram e exaltam as alegrias de se viver por aqui. Que também apontaram as tristezas, claro, e muitas vezes com maior intensidade.

O fato é que, de uma forma ou de outra, nossa arte é fortemente marcada por temas realistas, por traços que compõem a nossa identidade nacional. Mas esses temas e traços são, quase sempre, diurnos, vibrantes, coloridos… Enfim, esperançosos — mesmo quando não há pelo que se esperar.

Assim sendo, diante desse cenário ensolarado e tórrido, fica a pergunta: e nós, amantes do reverso disso tudo? Como ficamos? Onde sentamos no trem da nossa história, nós que, sem muito interesse pelo que é do dia, somos fascinados pelo que cabe à noite? Nós que, ao calor do beira-mar, preferimos o frio do beira-abismo? Nós que, indiferentes à vibração de nossas florestas ao sol, amamos a quietude dessas mesmas florestas à lua? Enfim, nós, apaixonados pelo horror sobrenatural, pelo inexplicável, pelo medo artístico? Para onde iríamos?

Se realmente fizermos essa pergunta, muitos darão a mesma resposta: “mudem de trem e vão para outro lugar. Aqui é terra de alegria, não desses sentimentos”. Mas pretendemos contestar essa resposta. Vamos provar, por A(luísio Azevedo) mais B(ernardo Guimarães) que o Brasil tem, sim, uma sólida tradição na arte do medo — pelo menos na literatura.

Há o cinema, também, com a indefectível figura de Zé do Caixão; mas dele muito já se escreveu e escreve. Agora, vamos abrir espaço para autores que, de alguma forma, flertaram com o lado escuro da vida. Para isso, preparamos uma breve porém significativa lista de danados. Olha só:

Machado de Assis, o sádico
Diferentemente de Aluísio Azevedo, o lado noturno de “Machadão” é mais conhecido. Leitor ávido de Edgar Allan Poe (é famosa sua tradução para o poema O Corvo), em mais de um conto Machado demonstrou imensa capacidade de nos deixar assustados e aflitos.

É o caso de A causa secreta, relato publicado um pouco antes de Demônios, em 1885. Quem conhece a obra de Poe vai identificar algumas influências nessa história com memoráveis passagens de crueldade; mas há também aquela irresistível magia do Bruxo do Cosme Velho, que fazia parecer com que um apenas texto valesse por muitos.

Trata-se, em poucas linhas de aperitivo, da relação de um estudante de medicina com um excêntrico sujeito, chamado Fortunato (mesmo nome de um dos personagens de O barril de amontillado, de Poe). Os dois tornam-se amigos e até sócios, até que Fortunato revela sua natureza contraditória numa passagem que promete queimar suas retinas — com direito a tortura animal e tudo mais.

Graciliano Ramos, o repulsivo
Um moribundo num quarto de hospital descreve, com insuportável lucidez, o apodrecimento de seu corpo; a sanidade mental do narrador é colocada em questão, e ora deslizamos para o absurdo, ora para a consciência da carne que se degenera.

Assim é Paulo, conto do alagoano Graciliano Ramos publicado na coletânea Insônia, de 1947. No texto, o autor de Vidas secas demonstra assustadora familiaridade com os subterrâneos da mente de seu narrador, que delira, sofre, agoniza.

O relato muitas vezes foi interpretado de forma metafórica: no lugar da morte física, coloca-se a “morte” de valores morais e sociais, e a decrepitude da lucidez. No entanto, há uma certeza: é uma experiência de leitura inquietante, em que nada é o que parece. 

Bernardo Guimarães, o assombrado
Sim, você leu certo: é o autor de Escrava Isaura, romance que depois virou uma das novelas televisivas mais bem-sucedidas da história. Mas, nos intervalos da redação desse famoso melodrama, o mineiro Bernardo Guimarães aproveitava para espreitar as trevas. E lá situou o conto A dança dos ossos.

Na verdade, ele o situou nos ermos entre Minas Gerais e Goiás. É num cenário rural e isolado que Guimarães coloca, ao redor de uma fogueira, homens rústicos que contam histórias uns para os outros. E uma dessas histórias, sobre o assassinato de um homem por algo que espreita na escuridão, é nada menos do que assombrada — e assombrosa. Por isso, merece a leitura.

Lygia Fagundes Telles, a mórbida
Curto e traiçoeiro: assim é Venha ver o por do sol, da escritora paulistana Lygia Fagundes Telles. A história foi publicada pela primeira vez em 1988 (na antologia “Venha ver o por do sol e outros contos”) e é tida por muitos como uma das mais poderosas da nossa literatura fantástica, e mesmo de horror. O curioso é que a trama se estende-se por apenas nove páginas; mas são nove páginas em que a tensão e a morbidez vão se intensificando com deliciosa sutileza.

Na história, uma moça chamada Raquel topa encontrar Ricardo, um ex-namorado. Ele a convida para ver o por do sol e a leva para um cemitério, onde se dará um desenlace arrepiante.

E, ao longo do trajeto, desfrutamos de todo o talento da autora: descrições breves mas muito precisas, prosa elegante e vários recursos retóricos que dão verossimilhança à história. Pois é, verossimilhança: a história torna-se ainda mais terrível quando constatamos o quão verdadeira ela nos parece. Leitura obrigatória!

R. F. Lucchetti, o incansável
O espaço aqui é curto; na intenção de traçar um panorama restrito mas abrangente, tivemos que deixar de fora outros grandes nomes que também resvalaram no horror — como Monteiro Lobato (com o conto Bugio Moqueado), Rubem Fonseca (com o relato grotesco Feliz Ano Novo), Humberto de Campos (com o conto Os Olhos que Comiam Carne), e tantos outros.

No entanto, a lista ficaria incompleta sem um dos mais prolíficos de nossos autores de horror: o paulista Rubens Francisco Lucchetti. Ainda ativo do alto de seus 87 anos, RF Lucchetti é autor de mais de mil e quinhentos livros. Sim, você leu certo: mil e quinhentos, além de 300 HQs e 25 roteiros de cinema.

Álvares de Azevedo, o obrigatório
Sem dúvida, o santo padroeiro da literatura nacional de horror. Reconhecido como o maior expoente do movimento gótico e do ultrarromantismo em Terra Brasilis, o paulista Álvares de Azevedo conseguiu uma façanha, ainda que póstuma: sua coletânea Noite na taverna, publicada em 1855, inaugurou (e, para muitos, encerrou) a nossa tradição literária de horror.

Hoje, pelo teor noturno, violento e sobrenatural dos sete contos que compõem a obra, Álvares de Azevedo é figura obrigatória em qualquer lista do gênero. E a nossa não teria valor algum se não o tivesse por carro-chefe.

Aluísio Azevedo, o demoníaco
Não é muita gente que conhece a face negra deste nosso expoente dos chamados realismo e naturalismo literários. Mas o maranhense Aluísio Tancredo Belo Gonçalves de Azevedo, autor do clássico O Cortiço, escreveu também uma aterradora novela intitulada Demônios (1893).

Pelo enredo, você vai perceber que o emprego de “aterradora” não é impensado: a história começa com o despertar de um escritor em um dia incomum. As horas se passam e ele percebe que o dia não nasce. Há apenas a noite interminável. Sendo assim, ele parte para uma jornada que se torna mais e mais assustadora. Às cegas, sem qualquer luz, vai buscar sua amada Laura.

A procura resulta em um reencontro inesperado, que os transformará medonhamente. E mais não falaremos, para não estragarmos o prazer da leitura dessa história na qual Azevedo demonstrou enorme talento para criar suspense e provocar medo. Há trechos que não devem nada à pior das bad trips — verdadeiros pesadelos alucinógenos. Em uma palavra: imperdível.

Trata-se de uma verdadeira usina de produção ficcional — sendo que a imensa maioria dessa obra é de horror. Com títulos como Os Vampiros não fazem sexo, O abominável Dr. Zola, O museu dos horrores, As máscaras do pavor, e tantos e tantos outros, Lucchetti permanece como um dos poucos — pouquíssimos — autores que dedicaram toda a sua vida à produção literária do horror. E do entretenimento, também: com temas clássicos da literatura gótica e de horror, suas histórias divertem, acima de tudo. Ler um livro de RF Lucchetti é como voltar ao trem fantasma daquele parque a que íamos quando crianças.

Aliás, aproveitando que estamos diante de um trem fantasma, nada melhor do que dar um passo adiante e embarcar. Deixemos aquele lá de cima, tão abarrotado, e entremos neste, rumo à escuridão literária. Ao lado destes grandes nomes de nossa literatura, pelo menos estaremos em ótima companhia.

*Oscar Nestarez é ficcionista de horror e mestre em literatura e crítica literária. Publicou Poe e Lovecraft: um ensaio sobre o medo na literatura (2013, Livrus) e as antologias Sexorcista e outros relatos insólitos (2014, Livrus) e Horror Adentro (2016, Kazuá).

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