Círculo interno do Black metal Norueguês vai virar filme



O sueco Jonas Akerlund talvez seja um dos nomes mais requisitados do atual mundo da música pop quando o assunto é videoclipe. Depois de começar a construir seu nome com os vídeos dos compatriotas do Roxette, explodiu de fato com o polêmico Smack My Bitch Up, do Prodigy. A partir dali, trabalhou com nomes diversos como The Cardigans, Mika, Metallica, Rammstein, Jamiroquai, Coldplay, David Guetta, Jennifer Lopez, Rolling Stones, Maroon 5 e Lady Gaga.

Foi com a Madonna, no entanto, que ele iniciou uma parceria de longa data – American Life, uma violenta mensagem anti-guerra com cenas de combates no Iraque que causou controvérsia nos EUA, é dele. Assim como também é o premiado vídeo de Ray of Light, que não apenas ganhou um Grammy mas também fez a rapa no VMA, faturando o recorde de sete estatuetas em 1998.

Só que, além de diretor, Jonas também é músico. Baterista, para ser mais preciso. E começou a carreira tocando uma parada MUITO diferente do tipo de música com o qual ele pode ser associado hoje. Sob a alcunha de Vans McBurger, ele foi o primeiro responsável pelas baquetas do Bathory, banda que foi uma das principais responsáveis pela popularização do chamado “black metal escandinavo”, de sonoridade áspera e temas ligados ao satanismo e às duras críticas religiosas.

Sua experiência no mundo da música extrema vai ser fundamental para seu próximo projeto como diretor de cinema, a adaptação do Lords of Chaos: The Bloody Rise of the Satanic Metal Underground, escrito em 1998 por Michael Moynihan e Didrik Søderlind. A produção será da Scott Free London (do diretor Ridley Scott) e da RSA London, em parceria com a VICE.

Embora não tenha tantas experiências como cineasta no currículo, o sueco parece estar bem acostumado a polêmicas. Seu primeiro filme, de 2001, foi Bakom fiendens linjer (algo como “Atrás das linhas inimigas”, em sueco), uma espécie de mockumentary sobre um grupo de neo-nazistas planejando uma série de atentados terroristas. Depois viriam Spun – Sem Limites (2002), com Mickey Rourke, Brittany Murphy e Jason Schwartzman (além de uma participação especial de Rob Halford), uma jornada pelo mundo dos laboratórios de metanfetaminas, e Os Cavaleiros do Apocalipse (2009), com Dennis Quaid, sobre um serial killer cujos hábitos estão ligados aos personagens bíblicos mencionados no título.

A trama de Lords of Chaos, baseada em uma história real, gira em torno do surgimento de uma criativa porém polêmica cena de black metal na Noruega, entre os anos de 1990 e 1993. Influenciados pelo culto a bandas com atração pelo sobrenatural e pelo IMAGÉTICO demoníaco como Black Sabbath, Mercyful Fate e Venom, os futuros músicos e seu SÉQUITO de fãs começaram a formar uma espécie de “círculo interno” ao redor de uma pequena revendedora de artigos especializados na cidade de Oslo. O nome, sugestivo, era Helvete (“inferno”, em norueguês) e o dono era um jovem chamado Øystein Aarseth, muito mais conhecido pelo nome de Euronymous. Satanismo era tema recorrente, assim como a crítica a todas as religiões e uma vontade absurda de chocar a sociedade como a conhecemos.

O tal círculo interno esteve ligado a uma série de eventos profanos e bizarros, a começar pelo suicídio de Per Yngve “Dead” Ohlin, primeiro vocalista do Mayhem, a banda fundada por Euronymous – e um dos primeiros a usar a característica maquiagem macabra conhecida como corpse paint. O companheiro de banda, aliás, foi quem encontrou o corpo sem vida de Per e, vejam vocês, chegou a fotografar a cena antes de chamar a polícia. Uma das imagens foi usada como capa do disco ao vivo Dawn of the Black Hearts, de 1995 (verdade, just google it se tiver estômago).

Nos dois anos seguintes, entre 1992 e 1993, os caras estiveram ligados a toda uma série de incêndios criminosos em igrejas históricas da Noruega. As mortes, no entanto, continuariam a rondar o circulo interno e as bandas que vieram dele – e em 21 de agosto de 1992, Bård “Faust” Eithun, da banda Emperor, assassinou um homem no parque olímpico de Lillehammer pelo simples motivo de “era homossexual”. Acabou preso e condenado a 14 anos de encarceramento. O ápice da história, no entanto, viria também no mês de agosto, só que de 1993, quando o próprio Euronymous acabou brutalmente morto a facadas por Varg Vikernes, que andava por aí com o codinome Count Grishnackh. Protegido de Euronymous, que o ajudou a lançar o projeto solo Burzum, rapidamente Vikernes iniciou uma rivalidade com o amigo, num embate pela posição de poder do grupo.

O resultado é que Vikernes acabou preso e com uma condenação de 21 anos, a pena máxima da justiça norueguesa. O músico foi solto em 2009, depois de cumprir 15 anos da pena. Mas, recentemente, já se meteu em nova confusão com a Justiça ao ser acusado de estocar armas ilegalmente, com planos de um atentado terrorista junto com a esposa e, logo depois, de incitar o ódio racial contra judeus e muçulmanos. Em 2014 foi novamente preso, passando seis meses atrás das grades enquanto defendia uma postura “paganista”, que segundo ele estaria de acordo com “os valores tradicionais dos verdadeiros europeus”. Não por acaso, embora hoje declare não querer ser associado ao nazismo, Vikernes acabou se tornando uma espécie de ídolo para a juventude neo-nazi do Velho Continente.

Dois nomes já estão confirmados no elenco do filme: Rory Culkin, o irmão mais novo de Macaulay que a gente viu como o carismático molequinho de Sinais, e Caleb Landry Jones, que fez o mutante irlandês Banshee em X-Men: Primeira Classe. Todavia, ainda não foi anunciado qual deles será Vikernes e qual interpretará Euronymous. O próprio Akerlund co-escreveu o roteiro junto com os dois autores do livro, além de Dennis Magnusson (Inferno na Ilha).

Esse não é a primeira tentativa de fazer essa adaptação. Lá atrás a produção estava nas mãos do diretor japonês Sion Sono (O Pacto), para o que seria o seu primeiro filme falado em inglês. Com roteiro escrito pelo documentarista e músico Hans Fjellestad (que, mais tarde, também seria mencionado como um potencial diretor para a produção), traria inicialmente Jackson Rathbone (o Jasper da Saga Crepúsculo) como Vikernes. As filmagens deveriam ter rolado em julho de 2009, para garantir o lançamento em 2010, mas a agenda do ator acabou complicando tudo e o filme ficou parado, até enfim mudar de mãos.

Embora grande parte dos fãs de metal tenha manifestado empolgação com o projeto, nem todo mundo parece estar assim tão animado. O próprio Vikernes, aliás, vem sendo um opositor ferrenho desde que o livro foi publicado pela primeira vez.

“Inicialmente, eu tentei revelar todas as mentiras do livro em uma resenha sistemática, mas eu já tinha escrito doze páginas e só tinha passado pelas 80 primeiras páginas das 400 do livro, acabei desistindo. Tem coisas melhores pra fazer na vida do que mergulhar em uma piscina de lama como esta”, disse ele, em seu site oficial. “Eles só querem vender livros e atender a uma agenda política ou religiosa – do tipo que todos nós temos. […] Eu arrisco dizer que a maior parte das coisas no livro são ditas fora de contexto, são resultado de ignorância, exageros ou mentiras maliciosas ditas por meus inimigos”.

Único integrante original do Mayhem em atividade na banda – e justamente um dos que mais tiveram tretas internas com o próprio Euronymous – o baixista Jørn Stubberud, mais conhecido como Necrobutcher, é outro que acha que o filme é um equívoco. Mas não pelos mesmos motivos que Vikernes, e sim porque os noruegueses não estão envolvidos. Sim, sim, conforme você pode imaginar, existia na época em que eles surgiram toda uma ANIMOSIDADE entre o black metal na Noruega e o death metal na Suécia.

“Este livro é uma bosta e alguns suecos estúpidos vão fazer um filme e isso não está correto”, afirmou ele, para a revista Rolling Stone. “Vou fazer tudo que puder para impedir este filme. Digam àqueles suecos e aos caras de Hollywood para se foderem”.

Necrobutcher ainda afirma que os direitos sobre a história foram vendidos para uma produtora norueguesa chamada Motion Blur – a responsável pelo filme Kon-Tiki, de 2012, indicado ao Oscar e ao Globo de Ouro como Melhor Filme Estrangeiro. Além disso, o músico diz que ele, pessoalmente, estaria ajudando no desenvolvimento do roteiro da adaptação que seria, nesse caso, a “oficial”. E durma-se com um barulho destes — literalmente.

Lords of Chaos ainda está em pré-produção desde a segunda metade de 2015 e segue sem previsão de lançamento.

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